Em 2017, o Cubo completava dois anos. Criado pelo Itaú e pelo fundo Redpoint eventures em São Paulo, o espaço se apresentava como “um ambiente inspirador, para conectar ideias e pessoas brilhantes com vontade de transformar negócios, tecnologia e a vida das pessoas para melhor”. Já era um dos epicentros do empreendedorismo e da inovação na América Latina, conectando 56 startups residentes a pessoas e empresas.
À frente do Cubo estava o empreendedor Flávio Pripas, que participou da iniciativa desde antes da inauguração, em 2015. Ex-executivo do mercado financeiro, criador da rede social de moda Fashion.me e da Bitinvest, ele foi meu convidado no programa Diálogos Fantásticos. Este texto reúne as lições daquela conversa sobre a função e a importância dos espaços de inovação no Brasil – lições que continuam valendo para quem quer criar um hub, um laboratório de inovação ou um ambiente de cocriação dentro da empresa.
Partindo de uma lacuna no mercado
Como qualquer empreendimento de sucesso, o Cubo nasceu como solução para uma demanda: faltavam espaços para inovação no Brasil. Pripas citou um estudo da UP Global com cinco variáveis para um ambiente de inovação florescer: acesso a talentos, acesso a capital, cultura empreendedora, ambiente regulatório e densidade. “Percebemos que, de todas as variáveis, conseguimos preencher a lacuna de densidade, criar o espaço onde pessoas podem se encontrar para falar de inovação, empreendedorismo, tecnologia, novos modelos de negócio, novas formas de trabalhar.” Em 2017, 600 pessoas circulavam pelo Cubo todos os dias.
Visão e liderança
Para construir um espaço assim, é preciso ouvir o ecossistema e testar caminhos. “Tínhamos uma visão, sabíamos mais ou menos o caminho que queríamos seguir, mas não exatamente como as coisas iriam acontecer. É praticamente como uma startup funciona: levanta hipóteses, vai testando e dá continuidade às que funcionam”, disse Pripas (nenhum plano sobrevive ao primeiro contato com o cliente).
A liderança também conta. “O Cubo é um local de conexão entre empreendedor e empreendedor, empreendedor e investidor, empreendedor e universidade, empreendedor e grande empresa. Eu sempre coloco o empreendedor no meio. Por isso, uma das melhores práticas é ter um empreendedor liderando: alguém que já veio do ecossistema, tem os contatos e atua para fomentar essas conexões.”
Equipe enxuta e estratégica
Tão importante quanto o líder é uma equipe bem estruturada, ainda que enxuta. Para Pripas, um espaço de inovação precisa de pelo menos três áreas: relacionamento com o mercado, eventos e backoffice. O Cubo começou com três pessoas, uma para cada área.
Conexões em foco
Num dia movimentado, Flávio chegou a participar de 19 reuniões. “Faço reuniões sempre em ambientes abertos e, quem vejo passando, chamo para a conversa. No Brasil, não estamos acostumados a fazer networking de forma tão aberta. Queremos trazer isso: explorar a oportunidade em qualquer lugar, sentado num café.”
Ele destacava os encontros orgânicos, que acontecem de forma inesperada: “Você vai ao Cubo conversar com uma pessoa e acaba conversando com três ou quatro outras, que nem sabia que estavam ali. Quando se consegue criar essa dinâmica, está no caminho certo.” É a serendipidade provocada de propósito.
O café como sala de reunião
O café público na entrada era a “sala de reunião oficial” de Pripas e um dos grandes acertos da arquitetura. Os eventos passavam por curadoria: muitas vezes o Cubo recusava eventos que gerariam receita, mas não acrescentariam valor ao ecossistema, e aceitava outros sem receita, mas com valor. Estudantes, investidores e professores atraídos pelos eventos alimentavam o processo de conexão.
Estruturando os conteúdos
Por cerca de um ano e oito meses, o Cubo funcionou de forma reativa, respondendo às necessidades do ecossistema. Com mais conhecimento do público, a equipe organizou as atividades em 11 programas, grandes guarda-chuvas de conteúdo onde o mercado tinha alguma lacuna. Um exemplo era o VC para Founders: seis encontros ao longo de seis ou sete meses em que investidores de renome explicavam quando a startup está pronta para receber investimento, como falar com um investidor e como negociar.
Unindo startups e grandes empresas
Outro programa, o meetup de inovação, reunia profissionais de inovação de grandes empresas. “Três palavras definem uma startup: escala, velocidade e execução. A grande empresa tem escala, tem execução, mas não tem velocidade. Juntar esses dois lados é transformador.” Todo processo na grande empresa é feito para diminuir riscos, e startup é sinônimo de risco (inovação aberta e fechada).
Pripas contou um caso real. Uma grande empresa de cosméticos gostou de uma startup e quis comprar seu produto. O gerente mandou a planilha de homologação de fornecedores: 452 itens, com segregação de funções e cargos de “chief” disso e daquilo. A startup tinha três pessoas. Pripas ligou para o CEO, que cancelou a planilha e contratou a startup – um sucesso. Diminuir essa distância é exatamente o papel de um espaço de inovação (cocriação).