Sabe aquela folhinha de manjericão bem verdinha e fresquinha, colhida na hora, bem cheirosa em cima do prato de macarrão? Pois é. Sempre quis esse luxo pra mim. Mas morando em apartamento acreditava ser quase impossível. Sabe aquele chá de hortelã? Feito com folhas frescas? Não ia dar mesmo. Continuaria no sonho. Esse sonho tem um vínculo com a saudade com as folhas frescas do quintal da minha casa em Belo Horizonte, quando era meu pai quem cuidava e eu apenas olhava ou colhia, despretensiosamente.
Um dia resolvi encarar e tentar ter pelo menos uma pequena hortinha. Um, dois, três vasinhos que fosse. Comprei vasos, terra e mudas. Plantei e esperei. Morreram. Não entendi por que motivo, mas não sobrou nada. Isso então deixou de ser sonho para se transformar em desafio. Plantei de novo. Comprei sementes. Brotaram. Começaram a crescer. Morreram.
Mas desafio dado é desafio a ser cumprido. Comecei de novo e de novo. A cada tentativa um evento diferente e a perda das plantas.
Sempre pesquisando, afinal o nosso Google responde tudo, mas a pergunta precisa ajudar. E eu não conseguia fazer a pergunta certa. Se a pergunta está errada, a resposta não vai servir. É assim.
Um dia achei uma informação boa e entendi que o meu erro não era apenas no ato de cuidar, era também – e talvez até maior – no ato de plantar. Foi aqui, na Herbivora encontrei umas dicas bem legais. Segui à risca. E estou tentando novamente, acreditando que agora vai. Olha como está.

Depois dessa – preciosa – informação e de continuar cuidando novamente das plantinhas, descobri mais. Que isso que eu quero, ter umas poucas ervas em casa – pertence a um contexto mais amplo e representativo dos nossos tempos, a agricultura urbana. Isso quer dizer a prática da agricultura em pequena escala, para atender prioritariamente ao consumo próprio. Descobri que o tema tem vários desdobramentos, que está sendo levado muito a sério, e que há muita história pra contar. Só que fica para um próximo post.
Agora está na hora de cuidar da minha horta.
Agricultura urbana: a busca por um mundo possível
Ter uma horta no quintal de casa não é novidade. Isso sempre existiu, e ainda existe, no país inteiro. A novidade é que vivemos em tempos de consumo consciente e alimentação saudável – e, com isso, o simples ato de pegar a salada no quintal se estende para os grandes centros, assimilando o conceito de agricultura urbana.
De acordo com a FAO, “a agricultura urbana e periurbana pode ser definida como o cultivo de plantas e criação de animais dentro e em torno das cidades”. Esse cultivo vai dos caseiros – em quintais ou vasos, casas ou apartamentos – aos comunitários e às pequenas áreas nas periferias. Valem grãos, leguminosas, tubérculos, frutas, ervas aromáticas e medicinais, bem como a criação de animais (porcos, galinhas, coelhos etc.).
Vários grupos estão atentos ao desenvolvimento da agricultura urbana, e comunidades criam hortas em locais públicos. Brasília, por exemplo, tem hortas com ervas medicinais nas ruas comerciais e inúmeras iniciativas de plantio em áreas públicas. Prédios residenciais e comerciais transformam suas coberturas em hortas. A Horta das Corujas, na Vila Beatriz, em São Paulo, tem muitos exemplos e abre espaço à participação.
Esse movimento de reinserção da agricultura nos meios urbanos valoriza a busca por uma alimentação mais natural, saudável, livre de agrotóxicos (e de atravessadores). Já conta com programas estaduais relacionados ao conceito de segurança alimentar e nutricional, que no Brasil está definido na Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional (LOSAN, 2006):
“A Segurança Alimentar e Nutricional é a realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras da saúde, que respeitam a diversidade cultural e que sejam social, econômica e ambientalmente sustentáveis.”
Ou não? O desafio da regulamentação
Por outro lado, o crescimento dessas iniciativas acendeu o alerta para sua legalização. Ou seja, as hortas da nossa infância podem passar a ser reguladas, principalmente quando geram alguma venda. Em 2015, foi apresentado na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 906/2015, cujo primeiro artigo define: “A agricultura urbana é a atividade agrícola e pecuária desenvolvida nos limites da cidade e integrada ao sistema ecológico e econômico urbano, destinada à produção de alimentos e de outros bens para o consumo próprio ou para a comercialização em pequena escala”. E logo traz a restrição: “deverá atender às exigências estabelecidas nas legislações sanitária e ambiental pertinentes às fases de produção, processamento e comercialização de alimentos”.
Sem nenhuma intenção de julgamento, apenas como reflexão: fico pensando se essa restrição será importante para as iniciativas existentes e se, de alguma forma, será possível separar o joio do trigo. Em paralelo, cidades como Paris foram no sentido oposto e criaram uma permissão para que os moradores “verdejem” os espaços públicos com o que quiserem.
Por Márcia Matos. Jornalista, especialista em educação a distância, estudiosa do mundo digital, com muita experiência em Tecnologia da Informação, consultora e palestrante, com vários artigos publicados. Ex- funcionária do SEBRAE e atualmente, na equipe do Laboratorium, é coautora do TREM – Trilha de Referência para o Empreendedor.