Algumas viagens terminam quando a gente desembarca. A minha passagem pela China nunca terminou. Três lições daquela imersão em Pequim e Xangai continuam guiando meu jeito de pensar inovação: olhar longe, experimentar sem medo e se adaptar como a água. Nesta edição #50, revisito cada uma e conto o projeto que nasceu delas.
A China é o principal parceiro comercial do Brasil. Entre janeiro e agosto de 2026, as exportações brasileiras para lá somaram US$ 77 bilhões, 15% a mais que no mesmo período do ano passado, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A gente vende soja, petróleo, minério e carne. Compra de volta máquinas, componentes e uma infinidade de produtos industriais. Com uma das maiores potências do mundo ocupando esse lugar na nossa economia, deveríamos prestar mais atenção não só no que vendemos e compramos, mas também no jeito como eles conduzem as coisas.
A China sempre foi, para mim, uma curiosidade que reúne tudo o que eu amo: história, criatividade, política e essa capacidade de realização, de fazer acontecer. Por isso, quando surgiu a oportunidade de participar de uma imersão da StartSe no ecossistema de inovação chinês, fui conferir de perto. Passei por Pequim, a cidade do império e do passado, e por Xangai, a cidade do futuro, com seus prédios de luzes piscando. Entre palestras, visitas e apresentações de startups, voltei com muitas histórias e com três lições de uma cultura milenar que ficaram comigo.
1. Visão de longo prazo (Yuǎnjiàn)
Vejam a imagem acima que mostra o que é o resultado do planejamento – transformar Xangai no centro financeiro da China. Olhando para aquela mudança, a pergunta é inevitável: como se constrói algo dessa dimensão?
Uma parte da resposta está na maneira de planejar. A China trabalha com uma visão de futuro que mira 50, 100 anos à frente. Essa visão é revista a cada cinco anos nos planos quinquenais (o atual vai de 2026 a 2030) e se desdobra em metas definidas ano a ano. Eles olham longe e decidem o que fazer agora.
Entre os temas do plano que vai até 2030, estão:
- Indústria forte e moderna: cadeias produtivas mais robustas e setores avançados, como aeroespacial e drones.
- Autonomia tecnológica: semicondutores, inteligência artificial, robótica, biotecnologia e computação quântica.
- Transição verde: energias renováveis, carros elétricos, armazenamento de energia, hidrogênio e energia nuclear avançada.
- Economia digital: mais tecnologia e conectividade presentes em todos os setores da economia.
- Mercado interno: aumento da renda das famílias e estímulo ao consumo.
- Segurança econômica: cadeias de suprimento resilientes e controle de riscos financeiros.
- População: apoio às famílias que querem ter filhos e ampliação dos cuidados com os idosos.
百年大计 (bǎinián dàjì), “um plano para cem anos”. Os planos plurianuais estão conectados a uma visão de longo prazo que mira pelo menos de 50 a 100 anos – como o povo chinês vai estar.
Inovações transformadoras exigem paciência, consistência e uma fundação sólida. Essa visão de longo prazo é uma das coisas que mais me interessam no jeito chinês de inovar.
2. Mente de principiante (Xin)
A segunda lição é manter a mente aberta para experimentar, mesmo sem entender direito o que vamos encontrar.
Manter o coração e a mente limpos de preconceitos permite enxergar soluções onde outros veem becos sem saída. A criatividade floresce quando desaprendemos o óbvio para questionar o mundo com curiosidade genuína.
Tenho uma história da viagem que ilustra isso. Num restaurante, achei que tinha entendido o cardápio em inglês pedindo “meet” (carne de vaca) e fiz meu pedido. Chegou um prato com vários tipos de carnes, incluindo miolos e mondongo – que não curto.
Ainda bem que o restaurante tinha um aviso – se não gostar não pague. Não paguei e fui para o restaurante ao lado.
Arrisquei de novo pedindo algo vegetariano – e veio um prato que era pura pimenta, a ponto de me deixar com os olhos marejados.
A primeira tentativa frustrada não me impediu de fazer a segunda. Para mim, mente de principiante é isso: experimentar sem exigir que toda tentativa dê certo.
Para quem trabalha com inovação, essa abertura faz diferença. Deixar os preconceitos de lado nos ajuda a questionar o que parece óbvio e a enxergar soluções onde, de início, só víamos obstáculos. O que você poderia descobrir se entrasse na próxima situação desconhecida com mais curiosidade?
3. Seja água (Wu Wei)
A água contorna os obstáculos e encontra passagem. Há mais de dois mil anos, o Tao Te Ching já dizia que o bem supremo é como a água. A filosofia taoista chama de não ação a atitude de fluir com as circunstâncias em vez de lutar contra elas. Bruce Lee traduziu essa ideia para o nosso tempo:
“Esvazie sua mente. Seja sem forma, como a água. Agora a água pode fluir ou pode se chocar. Seja água, meu amigo.”
Na inovação, isso se traduz em agilidade. E a China tem dado exemplos disso em escala. Diante das incertezas da guerra comercial com os Estados Unidos, o país não ficou reclamando do cenário. Buscou se adaptar e diversificou parceiros, e o Brasil é um deles. Nas organizações, a pergunta é parecida: quando as circunstâncias mudam, a gente consegue mudar também ou continua preso ao plano original?
E, já que estamos falando de água, quero compartilhar uma das coisas mais incríveis que vi na imersão, e que quase não aparece por aqui. Numa rodada de pitches, conheci uma startup chinesa dedicada inteiramente à água. Ela desenvolve robôs que limpam a superfície de rios e esgotos, instrumentos de navegação e barcos autônomos. A parte que mais me encantou foi a de lazer: a proposta é transformar qualquer superfície d’água, até um açude numa fazenda ou num parque, em espaço de lazer e turismo. É maleabilidade pura. Em vez de esperar o cenário ideal, eles olham para o que já existe e criam possibilidades novas.
Um curso para aprender com a China
A China continua nos meus planos. No meu planejamento, 2028 é o ano de passar uma temporada por lá. Numa sexta-feira, durante a recuperação de uma cirurgia, me peguei pensando: se eu ficar esperando alguém me convidar, talvez isso nunca aconteça. O que posso fazer agora? Dessa pergunta nasceu a ideia de criar, na ESPM, um curso sobre o modo chinês de inovar, com professores que dão aula no Brasil e na China.
Em breve compartilhamos mais detalhes. Se você quer saber mais sobre esse curso ou sobre a China, comente o que gostaria de saber.
Giro dos associados
- O Ricardo Migliano conduziu uma SuperAula aqui na Liga sobre relevância e foi além da aula. Ele criou uma ferramenta para cada um avaliar o próprio Índice de Relevância, refletir sobre posicionamento e desenhar novas estratégias para o negócio. O material foi compartilhado no grupo da Liga, com acesso exclusivo para associados. Esse tipo de troca é comum por aqui: quem participa compartilha o que sabe e o que constrói. Quer fazer parte? Fale com a Priscila Pinheiro, nossa conectora, e receba todas as informações para se associar.
- O Ricardo Jordão Magalhaes acaba de lançar sua própria ferramenta de CRM e está dando aulas diárias sobre vendas, às 8h da manhã, no seu canal do YouTube. Um bom jeito de começar o dia. Acesse o canal: https://www.youtube.com/@Ricardojordaomagalhaes
- O Gianmarco Schiavo escreveu no LinkedIn sobre como vem introduzindo IA, aos poucos, na empresa onde trabalha. Mesmo num ambiente industrial, o relato mostra que inovação não precisa estar só em novos produtos. Ela também acontece nos processos. E reforça algo que a gente conversa muito na Liga: não precisamos usar todas as ferramentas, o importante é ter clareza sobre o que queremos resolver. Leia o artigo: https://www.linkedin.com/pulse/como-estou-usando-ia-assistente-de-produ%25C3%25A7%25C3%25A3o-gianmarco-schiavo-fwnyf
Agenda Liga dos Inovadores
Visão de longo prazo, mente de principiante e capacidade de se adaptar não se constroem num dia. Elas nascem da prática constante e da troca com quem está no mesmo caminho. E é assim que a inovação continua com a Hora da Liga, sempre às quintas-feiras, às 10h da manhã, com encontros abertos para os associados trocarem experiência e aprenderem na prática. Se você quer participar, fale com a Priscila Pinheiro e solicite um acesso experimental. Confira a agenda de outubro!
01/10 – O Gianmarco Schiavo conduz a Quinta Marcha, primeiro encontro do mês, conversando com os associados sobre suas metas e objetivos para o período.
08/10 – Marcelo Pimenta conduz o encontro da Imersão IA na Prática, com conteúdo aplicado ao dia a dia dos negócios.
15/10 – Na SuperAula deste mês, vamos conhecer a história de um empreendedor da música e da educação: Paulo Fiola, da Blues Club (e meu professor de piano!)
29/10 – A conectora da Liga dos Inovadores Priscila Pinheiro reúne os associados no Deu Liga, encontro dedicado à troca de conhecimentos e à conexão entre os associados.
Olhar longe, experimentar sem medo de errar e se adaptar ao que muda. As lições que eu trouxe da China também aparecem aqui perto, em quem compartilha o que aprendeu, testa uma ferramenta nova ou abre espaço para ensinar. Inovação é isso: prática e troca, toda semana.
Se esta edição fez sentido para você, compartilhe com alguém que também está nessa jornada. E, se quiser aprender a inovar como a China inova, mande uma mensagem.
Até a próxima edição!
Um abraço,
Marcelo Pimenta e equipe.