Fishgets, de Cuiabá, é exemplo do potencial dos Institutos Federais como celeiro do empreendedorismo inovador.
Talvez muitos não saibam que 40 mil toneladas de alimentos eram desperdiçadas diariamente no Brasil, o suficiente para alimentar 19 milhões de pessoas, segundo dados de 2014 divulgados pela Embrapa. Ao mesmo tempo, a busca por uma alimentação saudável e sustentável vem aumentando o consumo de pescado no país. O peixe é nutritivo, saudável e saboroso, mas gera muitos resíduos que, na maioria das vezes, são descartados, com custo e impacto ambiental.
Da pesquisa ao produto
Pensando numa forma de mudar essa realidade, as professoras Daniela Fernanda Cavenaghi e Luzilene Aparecida Cassol e o professor Wander Miguel de Barros, do Instituto Federal do Mato Grosso (IFMT), desenvolveram uma tecnologia que reaproveita o material descartado e o transforma em alimento. “A biodigestão transforma esse resíduo em polpa de peixe, isenta de espinhos e micro-organismos”, explica Wander. “Essa matéria-prima pode ser utilizada para a fabricação de uma infinidade de produtos.”
O primeiro deles foi o Fishgets, um nugget feito dos resíduos do tambacu. “Tem o mesmo sabor e valor nutritivo que a carne do peixe”, afirma Daniela. Na época, a equipe já trabalhava em uma sopa de caneca e um pirão instantâneo, e expôs o produto no Startup Center da Feira do Empreendedor de Cuiabá, em 2015.
O Desafio de Ideias
Dar visibilidade a iniciativas que resolvem problemas reais, transformando pesquisa aplicada em oportunidades de negócio, é o objetivo do Desafio de Ideias, concurso promovido pelos Institutos Federais para apoiar o empreendedorismo inovador no ambiente acadêmico. A equipe do Fishgets ganhou Menção Honrosa na competição. “É uma oportunidade para que os jovens entendam que aquilo que eles pesquisam em sala de aula pode virar um negócio”, explicou Pedro Plese, então pró-reitor de Pesquisa, Inovação e Pós-graduação do Instituto Federal do Acre (IFAC), que organizou o X Congresso Norte e Nordeste de Pesquisa e Inovação (CONNEPI) em 2015.
O potencial dos Institutos Federais na formação de empreendedores aparece nos números. Em 2015, a Rede Federal tinha 743 mil alunos em cursos de qualificação, técnicos, superiores de tecnologia, licenciaturas e pós-graduação, em 562 unidades pelo país. “Para o empreendedor não existem apenas problemas, existem problemas com soluções. Ser empreendedor é criar ambientes mentais criativos, transformando sonhos em riqueza, e o Desafio de Ideias é um laboratório de negócios para os estudantes da rede federal”, disse Rosana Cavalcante dos Santos, então reitora do IFAC.
De pesquisador a empreendedor
“O Desafio de Ideias nos ampliou a visão, deixando de pensar apenas como pesquisador, mas também como empreendedor”, contou a professora Daniela. Para o professor Wander, foi a chance de os alunos aprenderem a organizar e testar ideias no mercado: “Uma coisa são sonhos, planos; outra é a realidade: o mercado de trabalho, mão de obra, fornecedores e o consumidor. Para empreender um novo produto, esse tipo de evento é fundamental”.
É exatamente o caminho que leva uma tecnologia do laboratório ao mercado. Para medir em que ponto um projeto está nessa jornada, vale conhecer o TRL, que mede a maturidade tecnológica de um projeto inovador. E, na hora de testar no mercado, lembre que nenhum plano de negócio sobrevive ao primeiro contato com o cliente.