Texto publicado originalmente em 2016. As campanhas citadas já foram encerradas, mas a história e a reflexão sobre educação empreendedora na base da pirâmide continuam atuais.
Tem um projeto que apoiei de forma voluntária e do qual tenho muito orgulho. Chama-se Empreende Aí – uma escola para incentivar pessoas de baixa renda que muitas vezes não tiveram a oportunidade de ter contato com os conceitos do empreendedorismo nem de receber algum tipo de orientação, mesmo tendo vontade e iniciativa para ter um negócio próprio.
A pesquisa GEM 2015 mostrava que, do total de empreendedores brasileiros, apenas 9,2% procuravam o Sebrae antes de abrir um negócio. Se esse é o número geral, é fácil imaginar que a população menos favorecida procure ainda menos orientação antes de tomar decisões importantes.
A lição do seu José
Sempre lembro de um taxista, o seu José, de quem eu era cliente no trajeto hotel–Sebrae quando frequentava muito Brasília, por volta de 2010. A cada corrida ele me perguntava alguma coisa sobre como abrir um negócio. Eu sempre respondia o que sabia, mas havia dúvidas sobre o GDF (Governo do Distrito Federal) e procedimentos do mercado local que eu desconhecia. Um dia perguntei:
– Seu José, por que o senhor não desce comigo aqui no Sebrae? Eu apresento o senhor ao pessoal do balcão, e eles têm gente que vai responder todas as suas dúvidas.
A resposta dele foi reveladora:
– Eu não tenho estudo não, meu filho, nem sei falar com essa gente. Não sei o que perguntar e não vou entender as respostas. Prefiro falar com o senhor, com quem eu já tenho uma certa intimidade e consigo perguntar o que não entendo.
Essa conversa mostra que não basta a informação existir: ela precisa chegar numa linguagem próxima, por alguém em quem a pessoa confia.
Empreende Aí: educação empreendedora na periferia
Foi para facilitar o acesso à prática e à educação empreendedora que os jovens Luis Coelho e Jennifer Rodrigues decidiram criar o Empreende Aí – um programa de formação em que “os alunos saiam de fato empreendendo, gerando sua própria renda através de um trabalho que eles tenham criado, sem precisar se submeter a um subemprego ou a algo que não faça tanto sentido para eles”. Conheci o projeto em 2015 e propus a Trilha de Referência para o Empreendedor (TREM) como referência para o programa.
As aulas aconteciam aos sábados na Fábrica de Cultura do Jardim São Luís, comunidade no extremo sul da cidade de São Paulo. Os modelos de negócio foram construídos aliando oportunidade e propósito de cada empreendedor, e seguiram para a captação de recursos por meio de uma campanha de crowdfunding.
Crowdfunding também é para impacto social
Depois do desastrado episódio da hamburgueria Zebeléo, muita gente ficou receosa com esse tipo de financiamento coletivo. Mas a verdade é que o crowdfunding é um meio poderoso para vários tipos de iniciativas inovadoras, entre elas as de grande impacto social.
A primeira turma teve seis projetos, que buscavam entre 4 e 6 mil reais para dar o pontapé inicial. As ideias iam de uma marca de camisetas engajada a um equipamento que fecha a janela automaticamente em caso de chuva, passando por um novo método de ensino de inglês:
- Personal Language Trainer – para popularizar o ensino de inglês de qualidade e de forma personalizada.
- Art e Sabor – um café no extremo sul de São Paulo, com ambiente agradável e descontraído, doces, salgados e encomendas para festas e eventos.
- Janelas Yasmin – janela residencial que, graças a um sensor de chuva, fecha automaticamente quando chove, deixando a casa mais inteligente.
- Impacte U – marca de roupas e acessórios que busca, com imagens e frases, provocar reflexão nas pessoas.
- Armazém dos Sabores – nascido do sonho de mãe e filha capazes de colocar amor e carinho em cada colherada.
- Agência Cresce – comunicação feita por pessoas da base para pessoas da base, não violenta e inclusiva, para estabelecimentos comerciais e sociais na região do Grajaú.
As recompensas iam de um piquenique com nativos em língua inglesa a e-books e camisetas exclusivas. Mas o mais bacana mesmo foi poder contribuir para a criação de novos negócios na base da pirâmide – histórias que podem inspirar outros jovens a ver no empreendedorismo um caminho para realizar seus sonhos. Se você nunca apoiou um projeto de crowdfunding, fica a sugestão: experimente apoiar iniciativas de impacto social. Muitas aceitam contribuições a partir de valores bem pequenos.
Quer levar a educação empreendedora para a sua organização?
Descomplicar o empreendedorismo e a inovação é o que eu faço. Veja como posso ajudar:
Palestras: para virar a chave da mentalidade criativa da sua liderança e da sua equipe, com histórias e exemplos ligados à realidade da sua empresa. Conheça as palestras.
Workshops: para transformar conhecimento em ação: a equipe trabalha desafios reais do seu negócio e sai com os próximos passos. Conheça os workshops.
Liga dos Inovadores: para continuar aprendendo depois da palestra ou por conta própria, com conteúdo, networking e aprendizagem contínua numa comunidade gratuita. Entrar na Liga.
Já levei essa abordagem para organizações como Sebrae, Sebrae ES, Senac, PremierPet, Banco do Brasil, Sicredi e Honda Motors.