Entrevista concedida ao Estadão PME em 2016. O contexto de crise mudou, mas a lição central continua valendo: quem não se reinventa, desaparece.
O currículo de Marcelo Pimenta é extenso, assim como sua experiência. Ele é jornalista, empreendedor, palestrante e um dos pioneiros no empreendedorismo digital brasileiro (criou sua primeira empresa de internet em 1996). Especialista em Marketing pela ESPM, onde também é professor de inovação, representou o Brasil no Conselho Internacional Acadêmico NetExplo, ligado à Unesco.
Com esse conhecimento, Pimenta fala com desenvoltura sobre o papel do empreendedorismo no Brasil e explica por que ainda não avançamos tanto quanto outros países. “Pagamos o preço de sermos uma nação que começou muito tarde a construir um capital intelectual sobre negócios, por isso, ainda muito limitado. Mas estamos trabalhando para rever essa situação e espero que as próximas gerações encontrem um ambiente mais propício”.
Crises não só servem para mostrar novas oportunidades, mas para redimensionar novas maneiras de consumirmos um produto existente. “A crise é o momento em que se buscam novas opções. Se a empresa não conseguir se renovar para oferecer novidades, vantagens e benefícios, estará dando a chance para que um concorrente ofereça sua oferta. A crise é a oportunidade para que fornecedor/cliente repensem sua relação”, explica.
Aliás, quando as empresas se acomodam e deixam de inovar, elas podem simplesmente desaparecer. Pimenta cita alguns casos de empresas que perderam “o bonde dos negócios”, como Mesbla, Mappin e Atari. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.
Qual o panorama do empreendedorismo no Brasil? Em que estágio estamos diante dos principais países empreendedores?
O tema empreendedorismo vem ganhando destaque na mídia, em algumas universidades, e muitos eventos de apoio e incentivo a novos empreendedores vêm sendo organizados. Mas estamos ainda numa fase muito jovem, como é nosso país. Em 1600 nós recém-tínhamos sido ‘descobertos’, e holandeses e ingleses já tinham a Companhia das Índias, exportavam e importavam produtos da África, da China e de diferentes regiões da Europa. Já eram negociantes, empreendedores. Aqui tivemos a elite portuguesa, que via o Brasil como colônia. Se a universidade de Coimbra é de 1290, a primeira universidade brasileira é de 1912. Os filhos dos detentores de capital no Brasil iam estudar na Europa. Além disso, fomos dos países que por mais tempo adotaram o sistema escravagista, que repercute até hoje. Enfim, pagamos o preço de sermos uma nação que começou muito tarde a construir um capital intelectual sobre negócios, por isso, ainda muito limitado. Mas estamos trabalhando para rever essa situação e espero que as próximas gerações encontrem um ambiente mais propício.
Quais as soluções mais eficazes que um empreendedor deve buscar em momentos de crise aguda?
Por mais que seja difícil para quem sofre os efeitos da crise, ela deve ser vista como uma oportunidade. A crise do frio gerou a descoberta do fogo. A crise das distâncias promoveu a construção dos barcos e estradas. A pressa exigiu que se inventasse o avião e os jatos. A necessidade de um padrão único de comércio fez com que se criasse a moeda e os bancos. A demanda por conforto gerou hotéis, lavanderias, assistências técnicas. A dificuldade de encontrar informações propiciou o Google, a saudade e a vaidade fizeram surgir o Facebook, a necessidade de backup de arquivos fez surgir o Dropbox, e assim vamos vivendo, empreendendo e inovando sem parar. Como Charles Darwin ensinou, nossa evolução é protagonizada por aqueles que mais têm capacidade de se adaptar. Inovar é o que nos faz sobreviver e é a resposta para todas as crises.
A crise é o momento em que se buscam novas opções. Se a empresa não conseguir se renovar para oferecer novidades, vantagens e benefícios, estará dando a chance para que um concorrente ofereça sua oferta. A crise é a oportunidade para que fornecedor e cliente repensem sua relação. Foi a crise que fez os consumidores repensarem os custos da televisão paga tradicional e optarem cada dia mais pelo Netflix. Foi a crise que levou ‘gourmets’ a abrir suas casas para jantares compartilhados e cidadãos a compartilhar seus carros oferecendo caronas. A crise permite que startups ofereçam produtos e serviços inovadores como substitutos ao jeito tradicional de resolver problemas. As cooperativas de táxi ficaram na zona de conforto por quarenta anos, para que em cinco anos os aplicativos reorganizassem o mercado, dando a chance para o surgimento de modelos como o Uber. O modelo de negócio delas foi colocado em xeque.
É preciso entender a crise como momento para repensar sua proposta de valor, seus segmentos de clientes, fornecedores, canais, política de preços, gerenciamento de pessoas. Não estou afirmando que é fácil, mas é preciso ser feito. Os negócios que não se reinventam nas crises morrem, e a Olivetti, a Atari, a Kodak, a Blockbuster, a Mesbla, o Mappin e as Lojas Manlec (quem é do sul vai lembrar!) estão aí para comprovar isso.
Sua empresa precisa se reinventar? Nas minhas palestras e workshops, ajudo equipes a enxergar oportunidades onde outros só veem crise.
Qual país deve servir de modelo de empreendedorismo? O que ele faz que nós não fazemos?
Israel. Para ter uma ideia, Israel tem uma área menor que o estado de Sergipe. No entanto, é um dos países com mais empresas listadas na Nasdaq fora dos Estados Unidos. Todo problema é enfrentado com uma solução que visa gerar valor tanto para o cliente (que se beneficia do produto) como para o acionista que financia a inovação. Eles têm problema de falta de água. Por isso, detêm uma das maiores tecnologias de dessalinização de água do mundo, são especialistas em irrigação, em agricultura de precisão, em reutilizar a água. Os conflitos ligados à criação do território foram terra fértil para que as indústrias de segurança, alarmes e defesa estejam entre as mais desenvolvidas do mundo. É um país muito jovem (o Estado de Israel é de 1948), por isso universidades, centros de pesquisa, empresas e investidores estão muito unidos, trabalham juntos, pois sabem que competem com outros países que têm uma trajetória consolidada.
Foram os criadores do ICQ (vendido por US$ 400 milhões em 1998, quando nem existiam os conceitos de startup, investidor-anjo e aceleradora) e do popular Waze. É também um dos países que mais investem em pesquisa e desenvolvimento no mundo, em proporção ao PIB. Para quem quiser saber mais, recomendo a leitura de Nação Empreendedora – O Milagre Econômico de Israel e o Que Ele Nos Ensina (Saul Singer e Dan Senor, editora Évora).
Em época de desemprego alto, muitos trabalhadores abrem seus próprios negócios. O que essas pessoas precisam fazer para se tornarem empreendedoras de fato?
Precisam buscar se informar se possuem o perfil empreendedor e quais competências precisam desenvolver antes de decidir pelo próprio negócio. Empreender não é fácil. Exige muita persistência, dedicação, resiliência, criatividade, esforço, força de vontade. Quem decide mesmo abrir um negócio tem um longo caminho, que começa pela identificação de uma oportunidade, construção do modelo, validação da ideia, planejamento financeiro, tributário, fiscal, societário, até o lançamento do negócio. Junto com a professora Márcia Matos desenvolvi uma metodologia que mostra esse caminho, a Trilha de Referência para o Empreendedor – TREM, que está disponível gratuitamente.
Quais setores no Brasil mais empregam características empreendedoras?
O setor de tecnologia é um dos mais propícios, pois a inovação tecnológica sempre gera novas oportunidades de negócios (sejam novos, sejam para transformar os já existentes). Mas outros setores também vêm sendo impactados, como o financeiro, o de saúde e o de automação (tanto residencial quanto empresarial).
Em época de crise, como o empreendedor deve gerenciar seus riscos?
Buscando se informar cada vez mais, não acreditando em qualquer um, identificando quais são os principais sinalizadores para seu negócio. E ser otimista sem criar dívidas baseadas só em desejo. A cabeça pode estar nas nuvens, imaginar soluções criativas, testar inovações – mas os pés devem ficar bem firmes no chão.
Assim como um boom de crescimento chega ao fim, uma recessão também tem prazo de validade. Como saber o momento de voltar a investir?
Você deve investir quando identificar uma oportunidade: existe um público que deseja uma solução, que está disposto a pagar por ela e não encontra alternativas? Você tem tecnologia, processos e recursos para criar e entregar esse produto? Tem uma receita, sabe ou deseja descobrir uma nova maneira de entregar? É algo que você sabe, gosta ou quer fazer? Como já citamos, foi a crise que fez serviços como o Uber e o Netflix ganharem mercado. Como ensina Nizan Guanaes: ‘enquanto uns choram, outros vendem lenços’. Em alguns setores, ‘esperar a crise passar’ pode significar perder a janela de oportunidade para lançar uma inovação.
O crowdfunding pode ser o futuro do financiamento das pequenas e médias empresas?
Não diria que sou um defensor do modelo de financiamento via crowdfunding, apesar de achar essa alternativa muito bacana para muitos modelos de negócios. Acredito que o melhor dos cenários é quando o empreendedor consegue financiar com capital próprio seu negócio. Começar pequeno e gerar receita para viabilizar o crescimento. Mas sem dúvida existem modelos de negócio que precisam de investimento externo. Há casos em que o melhor parceiro pode ser um investidor-anjo ou mesmo um fundo de investimento (se for um negócio já maior), principalmente se, além de dinheiro, ele trouxer conhecimento e networking. Em outros casos, o equity crowdfunding pode ser sim uma boa alternativa, principalmente quando o negócio é de nicho e há uma ‘causa’ capaz de entusiasmar muitos investidores.
Impostos e juros ainda são entraves para as PMEs? O que o governo precisa fazer para estimular novos empreendedores?
Sim, a macroeconomia e a política de impostos e juros são fatores importantes para o desenvolvimento das micro e pequenas empresas. Junto com um grupo de parceiros, amigos e colegas do mercado (professores, empreendedores e lideranças empresariais), criamos o Brasil Mais Empreendedor, movimento que culminou na redação de um documento com sugestões para desburocratizar processos, ampliar a educação e a cultura empreendedora, disseminar a inovação, atrair capital e ter uma política econômica mais favorável ao empreendedorismo. Mas sempre é bom lembrar que, mesmo com todas as dificuldades, existem empresas ganhando mercado, superando obstáculos e gerando resultados. Essa é a ciência ‘não exata’ do empreendedorismo: sempre há como criar um modelo vencedor. A questão é que encontrar esse caminho é um grande desafio.
Adapte-se ou morra: os ludistas do século XXI
Há cerca de 2.500 anos, o filósofo Heráclito cunhou uma afirmação que é um marco na história da filosofia: “ninguém pode tomar banho duas vezes nas águas do mesmo rio” – pois o rio já não é o mesmo (já são outras águas que estão a passar por ali) e também a pessoa não é a mesma (pois já se transformou, pelo menos um pouco, desde a última vez – seja o jeito de pensar, seja o tamanho do cabelo ou das unhas, seja o peso…). Foi esse pensador grego que considerou pela primeira vez a constante mudança como característica da natureza: tudo flui e nada dura infinitamente.
A mudança é a única certeza. Essa sabedoria está em inúmeras frases famosas, como a do ex-presidente John F. Kennedy: “A mudança é a lei da vida. Aqueles que olham apenas para o passado ou para o presente serão esquecidos no futuro.” E também na sabedoria popular. Cresci ouvindo, no Rio Grande do Sul, que “jacaré parado vira bolsa” – ou seja, se o bicho não muda e não se movimenta, acaba sendo abatido.
O assunto me veio à cabeça em 2015, ao ver as notícias sobre a manifestação dos taxistas em todo o país contra o aplicativo Uber. Foram 3 mil em São Paulo, segundo o Estadão, e outros milhares em outras capitais. O protesto era contra a “ilegalidade” dos motoristas do aplicativo, que não tinham alvará, entre outras questões. Por mais que existissem aspectos que talvez precisassem ser ajustados e modernizados, me pareceu que os taxistas não compreendiam que o mundo está em constante mudança (e Heráclito já nos ensinou isso faz tempo). Fiquei pensando que ali nascia a versão século XXI dos ludistas, que na Inglaterra de 1811, liderados por Ned Ludd, invadiram fábricas para quebrar as máquinas que “acabavam com os empregos”.
A ociosidade dos carros nas garagens, o número de pessoas que usam o carro sozinhas (quando o veículo poderia levar outros cidadãos que vão para a mesma região) e o estrangulamento das vias são questões que encontram respostas na economia colaborativa – padrão de modelo de negócio em ascensão em todos os segmentos, como mostram o YouTube, o Mercado Livre, o Airbnb e muitos outros que apostam no compartilhamento para fazer negócio.
Aos amigos taxistas (e a outros empreendedores que se sentem ameaçados pela economia colaborativa) deixo a mensagem atribuída a Charles Darwin: “não sobrevive a espécie mais forte, mas a que se adapta à mudança”. Essa mensagem fica explícita na imagem de @fakegrimlock para o livro Lean Entrepreneur, abaixo. Veja que o surfista está no fluxo. Não adianta construir barreiras, pois a força da mudança (a onda) é irreversível.

Falhar rápido: aprender rápido
A cultura startup entende que o erro faz parte do processo de aprendizagem. É do teste com o cliente que o empreendedor sabe onde está acertando – e o que precisa ser ajustado para criar um produto ou serviço com uma proposta de valor única. Faz parte desse contexto meu primeiro post, experimentar é o novo planejar. Só a experimentação fornece subsídios concretos para análise, baseados na vida real. No momento de verdade com o cliente. E o erro, nesse momento, serve para facilitar o diagnóstico do que precisa ser ajustado.
Recentemente, tratando desse tema na aula do MBA em Marketing Digital da ESPM, um aluno sugeriu esse vídeo para ilustrar o assunto – vários dos nossos ídolos falharam redondamente em suas vidas – e isso não impediu (talvez até tenha incentivado) que eles se tornassem as pessoas extraordinárias que se tornaram.
Vejam que legal:
Como ajudar sua empresa a se reinventar?
Reinventar um negócio começa pela mentalidade de quem está nele. Meu trabalho é descomplicar a inovação, ligá-la à realidade de cada empresa e ajudar equipes a virar a chave da criatividade. Veja como posso ajudar:
Palestras: para virar a chave da mentalidade criativa da sua liderança e da sua equipe, com histórias e exemplos ligados à realidade da sua empresa. Conheça as palestras.
Workshops: para transformar conhecimento em ação: a equipe trabalha desafios reais do seu negócio e sai com os próximos passos. Conheça os workshops.
Liga dos Inovadores: para continuar aprendendo depois da palestra ou por conta própria, com conteúdo, networking e aprendizagem contínua numa comunidade gratuita. Entrar na Liga.
Já levei essa abordagem para organizações como Sebrae, Sebrae ES, Senac, PremierPet, Banco do Brasil, Sicredi e Honda Motors.
Quer colocar isso em prática? Veja o guia como inovar em 6 passos, com o método que uso com empresas.