Nos últimos anos aprendi alguns conceitos que ganharam destaque nas minhas reflexões: DIY, edupunk, heutagogia, maker. Percebi o quanto esses conceitos estão relacionados e fico sempre pensando sobre as mudanças para as quais eles estão nos preparando – num futuro não muito distante de hoje.
Edupunk: o “faça você mesmo” aplicado à educação
Em 2011 baixei o e-book The Edupunks’ Guide, que continua atual apesar dos anos. A autora, Anya Kamenetz, fez com que eu entendesse a mim mesma quando disse que edupunk é alguém que tem dificuldade com os padrões da academia e busca novas formas de aprendizagem.
“An edupunk is someone who doesn’t want to play by the old college rules. Maybe you have interests that don’t fit the academic mold. Maybe you’re in a remote location. Maybe you have a family, a job, or other responsibilities and you can’t take on life as a fulltime student. Maybe you love new technology and new ways of learning. Or maybe you’re just a rebel!”
Ela amplia o conceito DIY – faça você mesmo – para a educação, mostrando que podemos aprender por nós mesmos. E, para ajudar, apresenta sete caminhos para que seja possível aprender sozinho:
- Faça pesquisa on-line
- Faça um Plano de Aprendizagem Pessoal
- Aprenda on-line
- Construa sua rede pessoal de aprendizagem
- Encontre um mentor
- Obtenha certificação
- Construa uma boa reputação na sua rede
Cada um desses caminhos, que podem ser sequenciais ou não, dependendo dos nossos objetivos, está muito bem explicado no e-book. Vale a leitura.
Heutagogia: a aprendizagem autodeterminada
Um pouco antes de baixar o e-book, lidando diretamente com educação a distância, eu tinha me deparado com o conceito de heutagogia (heuta — auto, próprio; agogus — guiar), desenvolvido nos anos 2000 por Stewart Hase, que aponta como foco central a aprendizagem autodirigida ou autodeterminada.
“Heutagogy is the study of self-determined learning … It is also an attempt to challenge some ideas about teaching and learning that still prevail in teacher centred learning and the need for, as Bill Ford (1997) eloquently puts it ‘knowledge sharing’ rather than ‘knowledge hoarding’. In this respect heutagogy looks to the future in which knowing how to learn will be a fundamental skill given the pace of innovation and the changing structure of communities and workplaces.”
Fazer sozinho, aprender sozinho. Parece óbvio, porque a história nos oferece muitos exemplos de aprendizado solitário, de coisas que foram criadas porque alguém se arriscou a fazê-las. Desde o mundo das cavernas, o aprendizado por conta própria e o fazer construíram o mundo em que vivemos.
Podemos arriscar a perguntar: como Leonardo Fibonacci conseguiu difundir os algarismos arábicos na Europa? Como Gutenberg inventou uma maneira de imprimir? Como Kepler descobriu que as órbitas dos planetas são elípticas? Imagino que estudando sozinhos, conversando com outras pessoas, experimentando, testando, fazendo. E não existiam os conceitos DIY e heutagogia.
Maker: o DIY com tecnologia
Mas tem mais um conceito: maker, que gerou o Movimento Maker, “uma extensão mais tecnológica e técnica da cultura Faça-Você-Mesmo ou, em inglês, Do-It-Yourself (ou simplesmente DIY). Esta cultura moderna tem em sua base a ideia de que pessoas comuns como eu e você podem construir, consertar, modificar e fabricar os mais diversos tipos de objetos e projetos com suas próprias mãos”.
Agora sim, temos conceitos para cada situação que foi trivial na história. Por quê?
Quero crer que há um motivo, para além da teorização. Quando situações triviais são eleitas para serem estudadas é porque deixaram de ser triviais para se tornarem relevantes. DIY, heutagogia e makers adquirem valor com a aceleração tecnológica, que vem acompanhada da redução de custos e da ampliação de acesso. Resulta que o número de pessoas no exercício do aprende-faz-aprende cresce a cada dia. Os praticantes estão nos espaços de coworking, nos diversos tipos de laboratórios, no YouTube, nos blogs, no Instagram. E estão sendo valorizados, seja com dinheiro, seja com reconhecimento (seguidores, likes, fãs).
Um exemplo brasileiro: o Engenho Maker do Instituto de Engenharia
Um bom retrato dessa transição veio de uma instituição centenária. O Instituto de Engenharia nasceu em 1º de julho de 1916, quando um grupo de engenheiros, indignado por ter seus projetos para São Paulo preteridos em favor de um arquiteto estrangeiro, decidiu se organizar para fortalecer a categoria e promover a modernização do país. A associação cresceu e se tornou uma das mais importantes do Brasil, com divisões técnicas que vão do agronegócio e da logística à robótica, à automação e às telecomunicações.
Ao completar cem anos, o instituto tomou uma decisão que chamou a minha atenção (Marcelo Pimenta): abriu, em sua sede ao lado do Parque do Ibirapuera, o Engenho Maker – um espaço de coworking maker onde a tradicional seriedade da engenharia dá espaço para a cultura startup, a prototipação rápida, a impressão 3D e a robótica livre. Para entender como uma instituição centenária teve a coragem de abrir as portas para uma iniciativa tão inovadora, conversei com Camil Eid, então presidente do Instituto de Engenharia, durante a 2ª Makerfest, em outubro de 2016, onde fui um dos palestrantes.
É a prova de que a mentalidade maker não é exclusividade de garagens e startups: organizações tradicionais também podem se reinventar quando criam espaços para o aprender fazendo. Para levar essa lógica para o seu negócio, veja também cultura de inovação: 5 passos para construir a sua.
O que esses conceitos têm em comum
Que mudança é essa que está para chegar? Talvez uma ruptura com os modelos tradicionais de ensino e de trabalho. Talvez uma ruptura no modelo mercantil. Não sei exatamente o que será, mas tenho certeza de que acontecerá. E é aí que mora a coisa comum entre os três conceitos: um processo de mudança, uma transição para outras formas de aprender, fazer, viver e empreender. Veremos.
Texto original de Márcia Matos, jornalista, especialista em educação a distância e estudiosa do mundo digital, coautora do TREM – Trilha de Referência para o Empreendedor. A seção sobre o Engenho Maker foi incorporada do post de Marcelo Pimenta publicado em outubro de 2016.